domingo, 29 de julho de 2012

Uma Temporada no Inferno

     Antes, se me lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações, todos os vinhos corriam.
     Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei.
     Me preveni contra a justiça.
     Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue!
     Consegui fazer desaparecer no meu espírito toda a esperança humana. Para extirpar qualquer alegria dava o salto mudo do animal feroz.
     Chamei o pelotão para, morrendo, morder a coronha dos fuzis. Chamei os torturadores para me afogarem com areia, sangue. A desgraça foi meu Deus. Me estendi na lama. Fui me secar no ar do crime. Preguei peças à loucura.
     E a primavera me trouxe o riso horrível do idiota.
     Ora, ultimamente, chegando ao ponto de soltar o último basta!, pensei em buscar a chave do antigo festim, que talvez me devolvesse o apetite dele.
     A caridade é a chave. - Inspiração que prova que eu estava sonhando!
     "Continuarás hiena, etc...", repete o demônio que me orna de amáveis flores de ópio. "A morte virá com todos os teus desejos, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais."
     Ah! pequei demais: - Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno.

Arthur Rimbaud - Uma temporada no inferno (Une saison en enfer)
Tradução de Paulo Hecker Filho
L&PM Pocket Plus - 2006

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