quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Entorpecentes, por Bernardo Soares

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas
elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas têm cada um a sua desilusão.
O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular.
Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não
dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

Retirado de:
O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
Companhia de Bolso, 2009

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