quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O que possuímos nós? (Bernardo Soares)

363.
     Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. 
     E o que possui quem ama? O corpo? 
     Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia NOSSO, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria...
     Possuímos a alma? 
     Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas.
    Que possuímos? que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que possui dele? 
     Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer. A posse de um corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celudada e gordurosa; o beijo não toca na beleza da boca, mas na carne húmida dos lábios perecíveis e mucosas.
     [...]Que possuímos nós? que possuímos? As nossas sensações, ao menos? Ao menos o amor é um meio de nos possuirmos a nós, nas nossas sensações? é, ao menos, um modo de sonharmos nitidamente, e mais gloriosamente portanto, o sonho de existirmos? e, ao menos, desaparecida a sensação, fica a memória dela conosco empre, e assim, realmente possuímos...

     Desenganemos até disto. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não fales. A memória, afinal, é a sensação do passado... E toda a sensação é uma ilusão.
     - Escuta-me, escuta-me sempre. Escuta-me e não olhes pela janela aberta a plana outra margem do rio, nem o crepúsculo, nem esse silvo de um comboio que corta o longe vago - Escuta-me em silêncio...
     Nós não possuímos as nossas sensações... Nós não nos possuímos nelas.

     (O crepúsculo verte sobre nós um óleo de onde as horas, pétalas de rosas, bóiam espaçadamente.)



Retirado de:
O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
Companhia de Bolso, 2009

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